"Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra" (ep. 3)

Por Walderez Nosé Hassenpflug.


Nesta bem-aventurança proferida no Sermão da Montanha, Jesus retoma a promessa expressa no Salmo 37- os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz. Mas a que terra Jesus se refere? O que é ser manso?


Segundo o espírito de Santo Agostinho, trata-se de uma promessa de Jesus que será cumprida quando o planeta Terra atingir um novo patamar evolutivo, passando de mundo de expiação e provas para o de regeneração, a caminho de se tornar um mundo mais feliz. Nesse novo mundo os homens serão ditosos, porque nele imperará a lei de Deus.


As escrituras afirmam que, para termos um mundo de paz, é imperioso conquistar a mansidão e viver sob a lei de Deus. A mansidão pressupõe vencer o medo, o temor. Para João, é a certeza no amor de Deus que afastará o temor de nossas vidas: “Cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor. No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor”.


Com o Evangelho de Jesus aprendemos que a obediência às leis de Deus se concretizará pela aceitação de que a Sua vontade é perfeita e soberana e rege a nossa vida e pela resignação frente às intempéries. Uma certeza deve guiar os nossos passos: Deus estará sempre conosco, de maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Que essa certeza nos permita viver em paz e confiantes.


No Evangelho Segundo e Espiritismo, capítulo IX, os guias espirituais nos alertam que tanto a mansidão, como a afabilidade, a paciência e a brandura se constituem em lei decorrente do mandamento de amor ao próximo: fazer ao próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse. Assim, Jesus condena quem se puser em cólera contra seu irmão porque toda palavra ofensiva carrega raiva, que é contra a lei do amor, fraternidade e caridade.


Nas mensagens, os espíritos nos recomendam coerência, isto é, que a nossa mansidão não seja máscara, aparência, dissimulação; que sejamos igualmente mansos em toda e qualquer circunstância, na família, nos ambientes sociais, na presença ou na ausência das pessoas, nos livrando da falsidade.


Para Cairbar Schutel, a mansidão é uma rica virtude com várias faces. Ela tem duas filhas diletas a delicadeza e a civilidade e gera a indulgência, a simpatia, a bondade e o cumprimento do amor ao próximo.


Portanto, a mansidão de que trata Jesus ultrapassa a compreensão simplista de que ser manso significa ser sossegado, domesticado, comodista, submisso ou sem vontade própria. Pelo contrário, a mansidão é atitude mental, é força poderosa de quem colocou o seu eu espiritual no comando de sua vida e por isso é capaz de governar a si mesmo, seus pensamentos, emoções e ações, assumindo corresponsabilidade na preservação da paz e da harmonia em si e no próximo. O valor dessa conquista se expressa na afirmação de Salomão: maior governador é quem governa a si próprio do que quem conquista nações.


Conquistar a si mesmo e desenvolver a mansidão em um mundo repleto de conflitos não é fácil. Para tanto, como afirma Emmanuel, precisamos ser inteligentes treinadores de nós mesmos. Além disso, ter um mestre que nos sirva de modelo. Jesus é esse mestre que tem autoridade para nos ensinar a sermos mansos, humildes e viver em paz por meio dos exemplos que nos deixou: aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas.


Nos momentos de insegurança, quando o medo ameaça se infiltrar no nosso coração, podemos nos abastecer de paz junto a Ele: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.


Finalizando, salientamos alguns exemplos que expressam mansidão, colhidos da literatura espírita:


Na relação com Deus, a mansidão se revela quando temos consciência da presença d’Ele em nós e nos outros; mantemos a fé e confiança na bondade de Deus, mesmo quando imersos em sofrimento; não sofremos por antecipação ou alimentamos medos infundados.


Na relação com o próximo, quando somos capazes de conter a impulsividade e desistir da violência, apoiando-nos na força do nosso espírito; calamos quando não podemos contribuir para a paz; não julgamos, não condenamos ou não atribuímos razões para o comportamento infeliz do nosso próximo; reconhecemos nos companheiros de caminhada irmãos nossos e desenvolvemos o compromisso de ajudá-los a construir a paz e a fé em Deus.


Na relação com o nosso mundo interior, quando conhecemos nossas reações, suas causas e aprendemos a controlá-las; canalizamos as emoções negativas de forma adequada; desenvolvemos o autoconhecimento, a autodisciplina; quando nos empenhamos na nossa reforma íntima.


Que Jesus ilumine a nossa consciência para que o estudo desta bem-aventurança nos comprometa com o exercício da mansidão como norma de conduta na relação com nossos irmãos, colaborando com a paz onde ela se fizer necessária.

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