“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus” (ep.1)

Por Walderez Nosé Hassenpflug.


O Sermão da Montanha foi pronunciado por Jesus perto da cidade de Cafarnaum, nos arredores do Mar da Galileia, em um anfiteatro natural onde se reunia uma multidão ávida por ouvi-Lo. Nesse dia, o vento soprava do mar para a terra e criava uma acústica perfeita, de forma que todos puderam ouvi-Lo com a maior clareza.


Também nós precisamos criar dentro de nós uma acústica que nos permita ouvir, compreender e transmitir a mensagem de amor de Jesus com a maior fidelidade possível. Quanto ao vento, que possamos ser uma suave aragem que sopra na direção do nosso próximo, levando fortalecimento, esperança e confiança nas promessas de bem-aventurança trazidas pelo Nosso Mestre.


Jesus proferiu esse Sermão logo no início de sua pregação. Sabendo que o povo judeu esperava um messias guerreiro, que se tornaria o rei de Israel, esclarece logo que o seu reino não é deste mundo. E para que não restassem dúvidas, apresenta à Humanidade um novo reino, um reino espiritual, eterno, o Reino de Deus, o reino da felicidade verdadeira, e propõe nos orientar a sermos cidadãos desse Reino, que não está aqui ou acolá, mas dentro de nós.


Podemos considerar o Sermão da Montanha como a Constituição, a plataforma do Reino dos Céus. Nele Jesus expressa toda a lei e todos os profetas em uma retomada e síntese das leis morais eternas, que devem reger a evolução da Humanidade.


Um reino pressupõe a existência de um rei, de uma autoridade máxima que a tudo governa e a quem os súditos devem respeitar, obedecer, amar. Sendo Deus, nosso Pai e Senhor, é essa a relação que devemos manter com Ele. Já no Reino de Deus em nós, o soberano absoluto deve ser o nosso espírito. É ele que deve comandar a nossa vida e as nossas ações em todas as dimensões do nosso ser, física, emocional e mental.


Jesus inicia o Sermão com as oito bem-aventuranças. Representam elas degraus de uma escada que Jesus nos convida a subir em busca da nossa evolução espiritual, sendo cada degrau a expressão de uma virtude a ser conquistada. Por meio delas, Jesus descreve as atitudes que precisamos desenvolver na nossa relação com o Pai, com o próximo, com o nosso mundo interior.


São as bem-aventuranças estados de espírito que nos levarão a sentir uma felicidade plena que ainda não conhecemos. No entanto, para estranheza de muitos, Jesus proclama felizes justamente aqueles que o mundo considera infelizes: os pobres, os que choram, os mansos, os misericordiosos, os pacificados, nem sempre valorizados no mundo de Mamon. Compreender em profundidade essa inversão de valores é uma tarefa que o Mestre nos confiou. Que juntos possamos dar conta dessa tarefa a começar pela bem-aventurança em que Jesus afirma que dos pobres em espírito é o Reino dos Céus.


“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus”


Jesus afirma que o Reino dos Céus é dos pobres em espírito, ou pobres pelo espírito. Neste primeiro degrau, a virtude a ser conquistada é a que nos fornecerá a chave para abrirmos a porta do Reino dos Céus – a humildade. Sem ela, não criamos em nós o ambiente propício para a conquista das demais. A humildade é a base, o alicerce, o elemento de sustentação à expressão do amor presente em todas as virtudes. Por isso Jesus afirma que dos pobres em espírito, dos humildes já é (e não será) o Reino dos Céus.


Mas o que é a humildade? André Comte-Sponville, em seu livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, nos diz que a humildade é tão discreta, que ela mesma duvida que seja uma virtude e desconhece a sua existência, por isso não a proclama, não a exibe. Sendo assim, podemos dizer que uma pessoa que se diz humilde não o é de fato, porque a que é desconhece que o seja.


Reconhecer a humildade em nós seria orgulho, vaidade, presunção, então, o caminho que temos é identificá-la nas atitudes do nosso próximo e nos testemunhos de humildade, de obediência ao Pai expressos por Jesus durante toda a sua vida.


Santo Agostinho afirmava que “onde está a humildade, está a caridade”, que dá a cada um o amor que ilumina e o dá de forma gratuita, espontânea, mesmo que o outro pareça não merecê-lo. É que a humildade leva ao amor e o amor verdadeiro sempre a pressupõe. Sem a humildade, o eu ocupa todo o espaço disponível, o que dificulta ou mesmo impede a percepção do outro, ou o trata como objeto.


Sponville complementa que “a humildade não é a depreciação de si mesmo... Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário, o conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que não somos”.


E como lidar com a nossa falta de humildade, de amor, de tolerância? Como não nos abater nessa busca? O olhar de misericórdia, generosidade e caridade que devemos ter em relação ao próximo também vale para nós. Todos têm direito a esse olhar. A partir da sua presença, é possível conviver com a nossa provisória incompletude e nos contentar com quem já conseguimos ser. Mas isso não é vaidade? Não, se pudermos nos aceitar como somos, mas sem nos iludirmos.


Ser humilde é amar a verdade sobre nós mesmos, enxergar nossas luzes e nossas sombras e avançar sempre, como fez Paulo de Tarso: “Senhor, entre todos os teus servidores eu sou o menor, mas graças a Deus sou o que sou”.


Avançaremos, portanto, na conquista da humildade se com ela andarem de mãos dadas a misericórdia e a caridade. Experimentando-as em nós, seremos capazes de vivenciá-las na relação com o nosso próximo e estaremos mais perto de seguir a convocação do Mestre Jesus a seus discípulos: “Um novo mandamento vos dou, que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. Que Ele abençoe a todos nós!


(Série publicada nas edições de 6 a 16 do Jornal Fraterno Maria de Nazaré.)


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